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[Resenha] O espião que saiu do frio, de John Le Carré

Livro O espião que saiu do livro, de John le Carré, pseudônimo de David Cornwell

Dizem por aí que o O espião que saiu do frio foi o livro responsável por transformar em gênero literário as histórias sobre espionagens e agentes secretos. Escrito por John le Carré, pseudônimo de David Cornwell, o livro teve seu boom quando a mídia revelou para o mundo que Cornwell foi um agente do serviço secreto britânico, entre 1950 e 1960. A partir daí, começaram as especulações do quanto da história de John le Carré seria verdade e o quanto seria ficção. Mas de acordo com o próprio autor, numa nota que abre a edição comemorativa de 50 anos, a história de seu personagem Alec Leamas é pura ficção, caso contrário seus superiores nunca o teriam liberado para ser publicado (será?).

O espião que saiu do frio conta a história de Alec Leamas, um agente britânico que atua na Alemanha Ocidental, durante a Guerra Fria, e que é responsável por toda a rede de espiões tanto do lado Ocidental quanto os infiltrados no lado Oriental. Mas após presenciar o assassinato de um de seus melhores agentes, Leamas retorna à Inglaterra e é chamado para conversar com o chefe de toda a rede de espionagem britânica, conhecido como Control. É interessante notar que seu nome em inglês significa “controle“. Durante essa conversa, Control pergunta várias vezes a Alec se ele não está cansado, se ele não gostaria de sair do frio, isso é, sair do centro da Guerra Fria e se aposentar.

Uma das principais características desse livro é que é preciso ler além do que está sendo dito, é preciso ler as entrelinhas. O espião que saiu do frio não pode ser lido com pressa ou sem muita atenção. Caso contrário você poderá perder partes essenciais da história, como o ar de conspiração que paira nessa cena entre Leamas e Control. No entanto, outra característica é que John le Carré sabe como mantendo o ar de mistério da primeira página até a última.

Mas não vá esperando encontrar uma história cheia de ação, assassinatos e lutas, pois a luta que é travada nessa história é com o intelecto do leitor que é confundido, assim como os personagens, incontáveis vezes, deixando-o sem saber quem está conspirando contra quem. Além disso, o livro de John le Carré também abre espaço para o debate sobre solidão, alcoolismo, moral, ética, hipocrisia e ainda critica os ideias utópicos de doutrinas políticas como o Socialismo e o Capitalismo.

“Somos o preço, o preço ínfimo… Mas em toda parte acontece o mesmo, pessoas ludibriadas e iludidas, vidas inteiras desperdiçadas, pessoas fuziladas e presas, grupos e classes de homens eliminados por nada…” – p. 230.

Quanto aos personagens, todos são muito bem construídos, cada um com a sua particularidade. Leamas, por exemplo, é praticamente um anti-herói: um cara na meia idade que possui uma personalidade explosiva. Apesar de gostar de personagens assim, eu senti falta de uma ligação emocional um pouco mais forte, não só com o protagonista como todos os outros personagens. Entre eles, a que menos gostei foi Liz, secretária de uma célula do Partido Comunista que se apresenta como uma personagem ingênua e ignorante que acredita que o amor que sente por Leamas pode solucionar todos os problemas. E não preciso repetir que esse tipo de representação feminina me irrita.

O espião que saiu do frio é um livro direto ao ponto, sem enrolação, que narra a história de forma crua fazendo com que cada página seja essencial para história. E apesar de ter gostado de todas as críticas e reflexões que esse livro nos apresenta, não posso dizer que foi um livro que me marcou. No entanto, acho válido a leitura para conhecer uma das mais importantes obras para o gênero policial, de espionagem.

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