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Refugiados da Coreia do Norte: entenda suas lutas

Refugiados da Coreia do Norte

Não é de hoje que o número de refugiados da Coreia do Norte causa certo espanto. Em 2016, o número total de norte-coreanos que conseguiram fugir para a Coreia do Sul bateu os 30 mil – o que representa um aumento anual de 18%, sendo o aumento de 10,4% apenas de 2015 para 2016. Aumento esse que provavelmente está relacionado com os conflitos atuais entre EUA e Coreia do Norte. E mesmo para os que conseguem escapar do governo norte-coreano, a luta continua. Os refugiados da Coreia do Norte precisam aprender a lidar com coisas que, para nós, parecem mundanas, mas para quem vive no país ditatorial são grandes novidades, como: escadas rolantes, caixas eletrônicos, acesso à luz e energia sem preocupações. Por isso, são obrigados a passar para uma espécie de treinamento antes de serem inseridos no dia a dia da Coreia do Sul.

Em muitos casos, os refugiados ainda são submetidos a condições desumanas como escravidão, estupro, fome e o medo de serem descobertos em terras hostis, como as da China, e deportados antes de conseguirem a sonhada liberdade. Mas para entender o que leva esses refugiados a fugirem da Coreia do Norte, é preciso antes entender a própria Coreia.

Coreia do Norte: entenda o governo

A Coreia do Norte surgiu como país logo após a Segunda Guerra Mundial, em 1948. Durante a guerra, o território coreano foi ocupado pelos japoneses, mas com o fim do conflito e a vitória dos Aliados (EUA, França e Inglaterra) o país foi dividido em dois, Coreia do Norte e Coreia do Sul. A parte sul do país ficou sob o controle dos EUA e a parte norte sob controle da URSS.

Por causa da influência soviética, Kim Il Sung foi escolhido como o líder do governo norte-coreano. Assim, foi instaurado um regime ditatorial baseado no culto à personalidade. Isso é, toda a cultura do país está voltada para glorificar a personalidade que ocupa o poder, seja na música, na arte ou em esculturas. Semelhante à cultura gerada pelo nazismo. Kim Il Sung governou por quase meio século, mas após a sua morte o poder foi transferido para seu filho Kim Jong-Il. Hoje, a Coreia do Norte é liderada por Kim Jong-un, neto de Kim Il Sung.

Os norte-coreanos são ensinados desde cedo que esses líderes são semideuses, que possuem poderes como ler a mente e controlar o tempo. Para nós aqui do ocidente, pode parecer até piada, mas para os norte-coreanos isso é uma verdade, juntamente com outras tantas crenças, difícil de ser desprezada a ponto de a ignorarem para ir em busca da liberdade.

Com um governo tão autoritário, é de se imaginar que por muito pouco você pode acabar parando nas prisões norte-coreanas, que para mim soam mais como campos de concentrações. A sociedade da Coreia do Norte vive com medo sem nem ao menos se dar conta, já que qualquer pensamento alto, frase mal formulada ou interpretação errada pode ser considerada traição. Os refugiados norte-coreados são considerados traidores do Estado e podem ser condenados até 5 anos de trabalho forçado, à prisão perpétua ou até mesmo à morte. Estima-se que a Coreia do Norte tenha mais de 20 mil presos políticos. Além disso, é proibido fazer ligações estrangeiras e viajar entre as cidades sem autorização prévia. Já imaginou viver em um lugar assim?

Coreia do Norte X Coreia do Sul

Em 1950, por causa de suas diferenças ideológicas e políticas, a Coreia do Norte invadiu a Coreia do Sul numa tentativa de integrar novamente as duas Coreias. Essa guerra teve duração de 3 anos e contou com a intervenção da ONU. Desde então, a fronteira entre os dois países passou a ser muito mais vigiada e protegida, o que impossibilita uma rota de fuga direta entre Coreia do Norte e Coreia do Sul.

Rio Yalu, na fronteira entre Coreia do Norte e China

Sendo assim,  a principal rota de fuga é pelo rio Yalu, que divide os territórios norte-coreanos e chineses ao norte do país coreano. Mas para conseguir se infiltrar na China, muitos norte-coreanos, principalmente as mulheres, submetem-se a trabalhos escravos e a uma vida ilegal até que encontrem uma oportunidade de sair da China em direção à Coreia do Sul. Essa segunda travessia pode ser feita pelo território de Laos (República Democrática Popular Lau) ou pelo território da Tailândia, onde os refugiados podem pedir asilo para as embaixadas sul coreanas.

Lao é uma das rotas de fuga dos refugiados da Coreia do Norte.

Refugiados da Coreia do Norte: conheça o relato de Yeonmi Park

Já existem muitos vídeos e entrevistas com refugiados da Coreia do Norte, entre eles se destaca a história de Yeonmi Park que aos 13 anos, recém operada, fugiu com sua mãe para a China a procura de sua irmã mais velha. Toda a sua luta e árdua jornada ela narra em Para poder viver, sua autobiografia lançada em março de 2016.

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