Companhia das Letras

[RESENHA] Para Poder Viver, de Yeonmi Park

Resenha do livro Para poder viver

Não adianta. Não tem como chamar este livro de um livro bom, de um livro maravilhoso, espetacular. A realidade é que Para Poder Viver é um livro horroroso, um livro impiedoso, um livro nada agradável. Não tenho como chamar “bom” um livro que mostra o pior do ser o humano, que mostra o mundo não romantizado, um mundo cruel, injusto. No entanto é um livro que deveria, sim, ser lido por todos, é um livro que traz consciência e que revela muito do que ninguém vê ou não quer ver.

A história de Yeonmi é uma história real e crua, é a história amenizada, vejam bem, do que muitas mulheres, famílias e crianças passam na Coreia do Norte – e se formos jogar uma lupa nos cantinhos de cada país, vamos nos surpreender com quantas Yeonmis vamos encontrar por aí. A ativista dos direitos humanos abre sua vida e seus segredos neste livro na esperança de que o mundo possa se juntar e fazer com que muitas vidas sejam salvas em seu país natal.

Yeonmi Park nasceu na Coreia do Norte e viveu sob o governo de Kim Il Sung, fundador do regime comunista no país, que para os cidadãos norte-coreanos era um deus capaz de fazer coisas sobre-humanas. Ela nos narra o absurdo do governo totalitarista, que executa pessoas por fazerem ligações internacionais ilegais, que rebaixa três gerações de família por um membro ter possuído, em tempos de guerra com o Japão, terras que pertenciam ao território japonês.

“Na Coreia do Norte, não basta ao governo controlar aonde você vai, o que está estudando, onde trabalha e o que diz. Eles precisam controlar você em suas emoções, fazendo de você um escravo do Estado ao destruir sua individualidade e sua capacidade de reagir a situações com base em sua própria experiência do mundo.” (p. 64)

Yeonmi conta que com a queda da URSS, que fornecia para a Coreia do Norte ajuda suficiente para manter a economia do país, seus pais tiveram que apelar para trabalhos ilegais, comercializando produtos importados e pedras preciosas no mercado negro. Quando a polícia descobriu o esquema, o pai de Yeonmi foi mandado para um campo de concentração disfarçado de prisão, onde, por menor que fosse a sentença, poucos saiam com vida.

No desespero de conseguir retirá-lo de lá, a mãe da ativista deixou suas duas filhas sozinhas em casa e viajou para tentar, no mercado negro, arrecadar dinheiro suficiente para subornar a polícia, a fim de que libertassem seu marido, que já estava doente. Assim, Yeonmi e sua irmã mais velha, Eunmi, tiveram que se virar sozinhas, com um dinheiro escasso para comprar comida, as meninas sobreviveram comendo insetos e plantas que cresciam em seu bairro.

Com a economia da Coreia do Norte cada vez mais quebrada e um governo repressor, a família de Yeonmi decidiu que talvez fosse melhor tentar fugir para China. Primeiro foi Eunmi, que partiu sem se despedir já que na época Yeonmi estava internada no hospital por conta de uma infecção no intestino. No desespero de ter notícias de Eunmi, a ativista, então com 13 anos, e sua mãe começaram a investigar quem poderia ter ajudado a filha mais velha na travessia do rio Yalu.

“Eu não estava sonhando com liberdade quando fugi da Coreia do Norte. Eu nem mesmo sabia o que significava ser livre. Tudo que sabia era que, se minha família ficasse para trás, provavelmente morreríamos – de inanição, de alguma doença, das condições desumanas de um campo de trabalho para prisioneiros. A fome tornara-se insuportável; eu queria arriscar minha vida pela promessa de uma tigela de arroz.” (p. 15)

As duas descobrem a responsável e decidem atravessar o rio no mesmo dia para ter notícias de Eunmi em terras chinesas. Mas o que parece o início de uma vida boa, fugindo do governo norte-coreano e de suas regras nada humanas, transforma-se em um outro pesadelo. Uma das primeiras coisas que Yeonmi presencia ao pisar em solo chinês é sua mãe sendo estuprada, bem ali na sua frente. É nesse momento que descobre a verdade, as duas seriam vendidas como esposas. As dificuldades de Yeonmi e sua família para conquistar sua liberdade são imensas.

Hoje, Yeonmi vive na Coreia do Sul e tenta, a partir de sua história de vida, pedir ajuda de instituições e organizações para que façam pressão para que a China amenize sua política quanto aos imigrantes norte-coreados e lute contra o tráfico de mulheres. Para Poder Viver é um livro angustiante que muitas vezes dá vontade de largar no meio, tamanho os absurdos e violências que são narrados, mas é uma história essencial para que muitos, que como eu  vivem em suas vidas cheias de liberdade, abram os olhos e vejam o que acontece no mundo. Então, por favor, não fechem os olhos e não desviem o olhar.

“Aprendi outra coisa naquele dia: todos temos nossos próprios desertos. Podem não ser iguais ao meu deserto, mas sempre teremos de atravessá-los para encontrar um propósito na vida e para sermos livres.” (p. 286)

 

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5 Comments

  • Reply
    Lais
    February 10, 2017 at 12:13 pm

    Pesado eim. É difícil ser mulher, em qualquer lugar do mundo 🙁

  • Reply
    Barbara Montechiare
    March 29, 2017 at 11:42 am

    Com certeza =´/

  • Reply
    Camila Mondaini
    March 29, 2017 at 6:53 pm

    Achei bem interessante a premissa e o livro parece ser muito bom! Já vou procurar pra ler mais sobre ele.

    Vamos voltar a postar viu? Sei que você consegue!
    Ah, sou a menina do evento da arqueiro 😀

    beijinhos!
    http://leiturize-se.blogspot.com.br/

  • Reply
    Lais
    July 28, 2017 at 10:33 pm

    Volta a postar 🙁

    • Reply
      babimontec
      July 28, 2017 at 10:58 pm

      Vou voltar! Tô me programando pra voltar com tudo em agosto 🙂

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