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[RESENHA] Quarto, de Emma Donoghue

Resenha do livro Quarto, de Emma Donoghue

Já comecei este livro pensando “senhor, como vou fazer a resenha disso?“, porque antes mesmo de terminar a primeira página eu já estava apaixonada pelo Jack. E como alguns devem saber (acho que cheguei a mencionar isso em alguma resenha), eu tenho muita dificuldade de falar sobre algum livro que me tocou profundamente. É como se não tivesse como definir todos os sentimentos que tive ao ler o livro. E se teve alguma coisa que Quarto, da Emma Donoghue, me trouxe foram vários sentimentos conflitantes.

Emma vai nos contar a história de uma mulher que foi raptada e trancada em um pequeno quarto por sete anos, sendo que toda noite seu sequestrador a visitava para usufruir o que “conquistou”. Logo, a jovem acaba engravidando e dando à luz a um menininho chamado Jack. E é aí que os meus conflitos internos começaram, porque a mãe, com o intuito de proteger seu filho, ensina a Jack que apenas tudo dentro do quarto era real, além do quarto – no Lá Fora – existia apenas o Universo e nada mais. Então, Jack cresce achando que tudo que existe é ele, sua mãe, o Velho Nick – que os visita toda noite – e as coisas que estão no quarto. A TV é real, mas o que eles assistem nela não são. Os cachorros e outros animais só aparecem na TV, então não são reais.

É um pouco difícil não criticar a jovem mãe por adotar essa explicação, que acabava por restringir todo o conhecimento de mundo, de vida, de tudo que o Jack poderia ter. Fica ainda mais difícil não criticar já que o livro é todo narrado em primeira pessoa pela perspectiva do pequeno Jack, de apenas 5 anos, que nos faz perceber a sua ânsia de ter um amigo. Só que ao mesmo tempo que você se vê criticando, você também pára para se perguntar que benefício Jack teria em saber que existe toda uma sociedade, outras crianças, animais – tudo o mais que ele via na TV – quando ele mesmo estava totalmente privado de ter e viver tudo aquilo.

“É esquisito ter uma coisa que é minha e não é da Mãe. O resto tudo é de nós dois. Acho que meu corpo é meu, e as ideias que acontecem na minha cabeça. Mas as minhas células são feitas de células dela, quer dizer que eu sou meio dela. E também, quando eu digo pra ela o que estou pensando e ela diz pra mim o que está pensando, nossas ideias de cada um pulam na cabeça do outro, que nem lápis de cera azul em cima do amarelo, que dá verde.” (p. 22)



Sem falar que também é admirável o grande esforço que a mãe tem em educar e ensinar as coisas básicas ao seu filho, além do esforço de o manter saudável e feliz em um espaço tão limitado. Na primeira parte do livro, Jack nos narra seu dia a dia, que era preenchido por atividades como treinar a escrita, ler os mesmos livros repetidas vezes, repetir frases de programas de TV e explicar o significado de algumas palavras difíceis, sair correndo ao redor de uma pista de corrida desenhada no chão, fazer maratona onde tinha que pular em diversos móveis, assistir à TV em horários estabelecidos pela mãe, fazer uma cobra com cascas de ovo e um pedaço de linha e gritar histericamente para a claraboia do teto. Sim, o que para Jack era apenas uma brincadeira, para sua mãe era um ato de desespero na esperança de que alguém os escutasse.

E a grande genialidade da autora foi passar tudo isso – todo o conflito interno da mãe e seu desespero de sair daquele lugar para poder oferecer uma vida melhor a Jack – pelo olhar de uma criança, por isso não estranhe ou torça o nariz ao encontrar erros de português ou de ortografia. São erros totalmente propositais que qualquer criança de 5 anos cometeria. Além do mais, mesmo muitas vezes não entendendo a amplitude da situação, Jack consegue sentir que algo está muito errado. Em consequência disso, é um menininho cheio de manias. Ele só se sente confortável em situações que ele  não consegue entender contando todos os dentes, os dedos das mãos e dos pés e até os rangidos da cama, quando o Velho Nick os visita.

“Quando o Velho Nick fez a Cama ranger, escutei e contei de cinco em cinco dedos até ele fazer aquele som engasgado e parar. Não sei o que podia acontecer se eu não contasse, porque sempre conto.” (p. 510)



Diante da perspectiva de ver seu filho viver para sempre naquele pequeno quarto, a mãe – que no livro não tem nome – acaba bolando um plano, talvez o único, para libertá-los daquela prisão, mas que também pode acabar matando ambos. E nesse plano, a peça fundamental será Jack. Por isso, a jovem resolve revelar a seu filho que tudo o que ele achou que fosse mentira na verdade é real. É aí que voltamos a criticar a atitude dela, uma vez que vemos o nó que a cabeça do Jack se transforma.

“Antes eu nem sabia ficar com raiva porque não podemos abrir a Porta, a minha cabeça era pequena demais para o Lá Fora caber nela. Quando eu era pequeno, eu pensava feito uma criança pequena, mas agora que tenho cinco anos eu sei tudo.” (p. 118)



Acredito que muita gente deva ficar instigada com a história por causa do mistério que envolve o êxito ou não da execução desse plano. Então antes que seja acusada de soltar spoilers eu vou parando de falar por aqui. Porém adianto que a história vai muito além do plano e com certeza já tá no topo da minha lista de favoritos do ano! E se você já leu o livro, por favor, fale comigo porque eu preciso discutir a segunda parte de Quarto com alguém! :0)

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10 Comments

  • Reply
    - fecprates
    March 27, 2016 at 11:53 pm

    Olá, tudo bem?
    Ah, eu amo falar sobre esse livro e sobre o filme. Ambos tem suas diferenças, mas é isso mesmo que garante todas as emoções. Vi o filme primeiro, mas não me afetou em nada na leitura, especialmente porque consegui aproveitar cada detalhe repassado pelo pequeno protagonista. Também já está entre meus favoritos.
    beijos, Fer

  • Reply
    Beatriz Andrade
    March 28, 2016 at 4:22 am

    Eu quero muito ler esse livro e depois ver o filme, mas acho que nessa primeira parte eu ficaria angustiada e com certa repulsa por conta dos estupros e do sofrimento tanto da mãe quanto do jack, acho que esse menina sofre muito e fico com o coração na mão só de ver impressões do livro/filme. Acho que o trailer do filme revela o spoiler que você ficou com medo de dar kkk mas justamente pelo trailer é que fiquei curiosa com o livro porque se fosse apenas pela primeira parte eu não leria porque não gosto desse tema.

  • Reply
    Ivi Campos
    March 28, 2016 at 11:23 am

    Tenho este livro na estante desde 2013 e nunca me interessei muito na leitura, apenas com a divulgação do filme é que fiquei curiosa para conferir o enredo. Fiquei imaginando você lendo a primeira página, já envolvida pelo carisma do Jack e acredito que acontecerá o mesmo comigo. Adorei a intensidade da sua resenha e espero poder ler o livro em breve.
    Beijos

  • Reply
    Bruna Costabeber
    March 28, 2016 at 11:11 pm

    Olá!
    Não é só você que tem dificuldades de falar de um livro que agradou muito, eu também tenho.
    Consigo entender todos os sentimentos conflituosos que o livro te provocou e acho que sentirei o mesmo, quando ler.
    A autora parece ter trabalhado tudo muito bem. Ver o sofrimento pelos olhos de Jack deve ser fascinante, apesar de eu ousar dizer que não é um sofrimento, pois é a vida que ele conhece e a Mãe fez de tudo para que, de algum modo, fosse boa.
    Enfim, amei sua resenha e espero ler o livro em breve.
    Beijos
    http://mileumdiasparaler.blogspot.com.br/

  • Reply
    Delmara Silva
    March 28, 2016 at 11:48 pm

    Menina… Tenho lido tantos elogios a esse livro e ao filme que acaba sendo inevitável não querer ler e eu já quero vou… quero muito por sinal, já faço uma ideia do quanto vou ficar comovida com essa história e só estou esperando terminar com as leituras de parceria que acabaram de acumulando para poder pegar meu exemplar que já está na minha estante me esperando.

    Abçs
    Sou bibliófila

  • Reply
    Gabrielly Marques
    March 29, 2016 at 12:23 am

    Amei sua resenha! Adorei saber sua visão sobre o livro e fiquei totalmente curiosa para conferir essa leitura!! Minha irmã, que já leu, amou demais e vive recomendando. Quero comprar esse logo e espero ter uma ótima experiência de leitura também. E espero mesmo não cair na tentação de ver o filme antes! hahaha
    Beijoos
    http://umaleitoravoraz.blogspot.com.br/

  • Reply
    Th. Maia da Costa
    March 29, 2016 at 12:02 pm

    Oie!!!
    Estou me roendo de vontade de ler esse livro, assiste ao filme e simplesmente o amei. Quero muito poder finalmente ler o livro que todos tem caído de amores. Tenho certeza que irei me apaixonar e me emocionar pela escrita da autora.
    bjs

  • Reply
    Profissão: Leitora
    March 30, 2016 at 12:34 am

    Eu não sabia absolutamente nada sobre essa história, até que veio o oscar. Não assisti o filme ainda por quero ler o livro primeiro. Aí vem você com essa resenha que me faz necessitar dessa leitura. Como a gente faz? Corre atrás agora, né??? Aí quando ler volto aqui pra conversar contigo ele.

    ;D
    Profissão: Leitora

  • Reply
    Andy Nantes
    March 31, 2016 at 3:07 am

    Oi!
    Há alguns anos que eu vejo a capa desse livro e a premissa não havia me chamado a atenção em absoluto! Jurava que não leria essa obra, mas aí veio a adaptação e os vários elogios ao filme e ao livro e acabou que o livro foi parar na minha wishlist e estou bem ansiosa para realizar logo a leitura e espero me surpreender com a narrativa!
    Beijos,
    Andy – StarBooks

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    Carolina Neves
    April 3, 2016 at 11:33 pm

    Olá,
    Eu sou muito curiosa com relação a esse livro e sei que ele é bastante doloroso. Sei que vou mergulhar em um mar de lágrimas, mas ainda assim quero saber da história de Jack. Gostei bastante da sua resenha e eu queria ler para tirar minhas conclusões sobre a mãe do menino.
    Beijos,
    Delírios Literários da Snow

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