Saída de Emergência

[RESENHA] Brasyl, de Ian McDonald

Resenha do livro Brasyl, de Ian Mcdonald

Todo mundo, em algum momento, já parou para imaginar como teria sido sua vida se tivesse seguido por este ou aquele caminho diferente. E talvez muitos (ou talvez eu seja a única?) chegou a imaginar se em algum universo, ou até mesmo universos diferentes, existiria um outro “eu” (no meu caso, uma outra ou outras Barbara’s) que teria tomado a decisão não tomada e teria se transformado em uma pessoa totalmente diferente. Pois bem, esta ideia é o nó central da história de Ian McDonald.

Eu poderia, também, dizer que o nó central são teorias da física quântica, mas aí acho que muita gente teria saído correndo para longe desta resenha após ter lido a palavra “física”. Eu provavelmente teria sido uma delas – em um universo onde eu não seria blogueira e não teria lido Brasyl. Mas calma, não entre em pânico! McDonald (não o palhaço que canta mão com mão, pé com pé!) sabe explicar muito bem as teorias e você não vai ficar boiando. Pelo menos eu não fiquei – e olha que reinou zeros em exatas nos meus boletins do ensino médio (MÃE, É BRINCADEIRA, TÁ?! HAHA… ).

“Assim como os números, a música é uma coisa inteiramente própria, que não faz representação de nenhuma realidade.” (p. 49)

A física quântica vai fazer o nó entre três histórias apresentadas no livro. A primeira história, a que dá início ao livro, é a de Marcelina. Descendente de alemães, Macerlina é uma jornalista que vive no Rio de Janeiro, no ano de 2006, e trabalha para um canal de televisão sensacionalista que produz entretenimento do pior tipo. O livro começa com a Marcelina gravando o piloto de um programa,O Fuga Implacável. A produção do Canal Quatro deixa carros para serem roubados e quando os ladrões levam um carro começa o reality show, tudo que os ladrões têm que fazer é não serem pegos pela polícia. E é claro que o feitiço acaba virando contra o feiticeiro.

Confesso que nesse início eu fiquei um pouco perdida. São muitos personagens apresentados em uma cena de ação, então me vi toda hora voltando algumas linhas ou páginas para entender quem tinha dito o que e quem era o cameraman, o cara do som, etc. Sem falar que demorei a me acostumar com a escrita do autor, que usa muitos períodos longos o que, a princípio, pode ser um pouco confuso. Mas uma vez que você se acostuma, você até pára de notar o tamanho dos períodos.

Logo depois de conhecer Marcelina, o leitor é apresentado a Edson, um cara que cria mil e uma personalidades e funções (podendo ser desde Edim, o travesti, até o grande empresário da De Freitas Global Talent) na tentativa de conseguir sair da pobreza e se mudar da favela, na cidade futurística de São Paulo, onde a tecnologia é capaz de rastrear a tudo e a todos. Aqui, eu notei um grande alerta geral do autor de onde podemos parar se continuarmos a viver tanto em função do digital e favorecendo a sociedade do espetáculo. No Brasil de Edson, qualquer um ou qualquer coisa pode ser rastreado, sua vida fica toda e completamente exposta no digital – que todos podem acessar através de seus I-shades (imaginem óculos com acesso à internet). Alguém aí lembrou dos I-glasses da Apple?

“E assim é que a inteligência humana é escrava da doutrina, agrilhoada e vendida tão completamente quanto qualquer um dos pobres diabos que passam por nós naquelas jangadas de escravos quase a afundar. O divino é invocado e não se pode mais argumentar (…) A arrogância de sua suposição de possuir toda a verdade, de que não é necessário mais nenhum debate pois eu só poderia estar correto desde que concordasse com a sua doutrina” (p. 135)

Mas talvez a história mais importante e que merece total atenção seja a do passado, quando Brasil ainda era uma colônia portuguesa. Esta história nos apresenta o Padre Quinn, jesuíta irlandês enviado ao Brasil para investigar um padre renegado, Diego Gonçalves, na Floresta Amazônica. Quinn acaba sendo obrigado a viajar com o geógrafo, Dr. Falcon, que quer medir o tamanho do mundo com um pêndulo. A convivência destes dois vai render ótimas reflexões sobre ciência x religião, passagens que se tornaram as minhas favoritas do livro.

Infelizmente, eu não consegui me indentificar profundamente com nenhuma personagem. Dr. Falcon foi a que eu mais simpatizei, mas acredito que foi muito mais pelo meu lado cético do que pela complexidade da personagem. A minha maior motivação para continuar a leitura foi em descobrir como os três mundos iriam se ligar. Porém, o que mais me impressionou em Brasyl foi como um gringo, Ian McDonald, soube retratar o Brasil tão bem (talvez até melhor) quanto um brasileiro. Mcdonald não só mostrou conhecimento da cidade do Rio de Janeiro e São Paulo e da Amazônia, como também dos nossos problemas sociais e culturais (como o famoso malandro carioca que burla regras e visa somente o benefício próprio). Só por esse detalhe – exposto logo nas primeiras linhas – já vale a pena todo o livro! Aplaudo de pé a dedicação e ao talendo do autor.

“Ganância, vaidade, voracidade, brutalidade e desprezo pela vida são vícios de todas as grandes nações do mundo. No Brasil elas são virtudes corretas e praticadas com zelo.” (p. 145)

Mas alerto aos desavisados que Brasyl não é um livro para se ler poucos minutos antes de deitar a cabeça no travesseiro. É uma leitura que vai exigir do leitor muita atenção, já que a narrativa vai e volta no tempo incontáveis vezes e para quem estiver desatento vai acabar parecendo uma  história muito louca e sem sentido. Apesar de que louca é mesmo, já que se trata de uma ficção científica.

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No Comments

  • Reply
    PAULO S.
    September 15, 2015 at 9:19 pm

    "Ganância, vaidade, voracidade, brutalidade e desprezo pela vida são vícios de todas as grandes nações do mundo. No Brasil elas são virtudes corretas e praticadas com zelo." esta frase já vale a leitura, me pergunto como tem gente que consegue gostar de uma nação construida com esse pensamento!

  • Reply
    babimontec
    September 16, 2015 at 2:58 am

    quando estamos apaixonados ficamos cegos para os defeitos ;/

  • Reply
    Kétrin Galvagni
    September 23, 2015 at 12:10 am

    Olá, parabéns pela sua resenha que está incrível e muito bem estruturada! Sabe que o livro não chama muito minha atenção? talvez seja pelo gênero que não sou acostumada a ler. No momento eu não pegaria ele para ler, mas quem sabe mais para frente eu dou uma chance 😀

    Beijos

    http://www.oteoremadaleitura.com/

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    Coleções Literárias
    September 23, 2015 at 5:50 am

    Eu adorei sua resenha, muito bem escrita e completa.
    O livro eu não sei se leria, a premissa é até interessante, mas no momento eu não estou com querendo ler livros lentos, que devem ser lidos com calma kkkkkk
    Mas amei mesmo sua resenha, parabéns

  • Reply
    babimontec
    September 23, 2015 at 6:03 am

    Obrigada, Kétrin! 🙂
    Realmente, é um gênero que não é para todos os gostos. Algumas histórias podem ser bem confusas e até mesmo meio paradas, mas também é um gênero de MUITOS livros que fazem sucesso mesmo depois de ANOS desde a sua primeira publicação. Então, se um dia sentir vontade e e curiosidade, não deixe de se arriscar numa leitura assim 😉

  • Reply
    babimontec
    September 23, 2015 at 6:06 am

    Obrigaaãaa <3
    Nossa, eu entendo perfeitamente. Eu mesmo entrei numa fase agora de livros leves, porque a vida já tá difícil de levar e encarar livros com temáticas pesadas ou com narrativas muito intelectuais vai ser bem pesado hahaha
    Meu cérebro está clamando por um livro da Meg Cabot neste instante :3

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