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[RESENHA] Carrie, a estranha, de Stephen King

Carrie, a estranha é um ótimo exemplo do que aconteceria se cada pessoa vítima de bullying resolvesse revidar com a mesma intensidade que sofre. Logo na introdução, King explica que a inspiração para a criação da personagem principal veio de duas meninas que estudaram com ele. Uma tinha uma família extremamente religiosa, que mantinha cruzes gigantes penduradas nas paredes dos cômodos da casa, outra que era acima do peso e sofria com as críticas dos colegas. As duas tiveram o mesmo destino: o suicídio.

A mistura de ambas fez nascer Carrie, uma adolescente filha de uma mulher completamente devota (e cega) a deus que enxerga tudo relacionado a sexo e à sexualidade (entre outras muitas coisas) como ato do demônio. E isso inclui a própria filha. Não é de se espantar que Carrie seja uma jovem completamente reprimida e que continuaria a achar que os bebês nascem do repolho ou são trazidos pela cegonha, se não fosse o terrível incidente no vestiário feminino.


Quando Carrie tem sua menarca (primeira menstruação) acaba surtando achando que vai morrer e sofre o pior bullying que qualquer garota poderia sofrer. Enquanto são atirados todos os tipos de absorventes em sua direção, Carrie acaba desencadeando seus poderes paranormais. As luzes começam a piscar sozinhas, o chão começa a tremer e todas as meninas saem correndo do vestiário. Resumindo assim parece até filme de comédia, mas a narrativa de Stephen King faz com que você se sinta a própria Carrie White.

“Sua mente tinha…tinha… ela procurou uma palavra. Tinha dobrado. Houve uma curiosa flexão mental, quase como um cotovelo puxando um haltere. Também não era exatamente isso, mas ela não conseguia pensar em outra coisa. Um cotovelo sem força. Um músculo fraco de bebê.” (p. 33)

E nessas horas em que poderes são revelados sempre lembro do querido tio Ben. Um grande poder traz uma grande responsabilidade. E quando um grande poder cai nas mãos de alguém sedento por vingança? Exatamente, tragédias acontecem e muito sangue é derramado. Tratando-se de uma história de Stephen King, claro que não poderia faltar esse pequeno detalhe. Carrie ganha uma autoestima que nunca teve ao perceber do que é capaz de fazer, assim começa a desafiar os limites impostos por sua mãe e ousa aceitar um convite para um encontro! Mas quando seu coração é partido, as consequências são bem graves.

Tenho que confessar que Carrie, a estranha (e o mesmo vale para O Iluminado) não me mostrou o lado tão conhecido de Stephen King, o do terror. Conheci um outro lado, o lado que dizem ser o “anormal”, o lado que mostra uma sensibilidade e um cuidado com a escrita espetaculares. Para contar essa história, King utilizou de diversos recursos diferentes de linguagem, desde matérias jornalísticas, entrevistas na delegacia a artigos acadêmicos e sem deixar a narrativa arrastada. E com todos esses típos de documentos e textos conhecemos o olhar de personagens diferentes e acabamos entendendo, ao menos que um pouco, as ações de cada um. Mas não importa a forma que o autor tentasse explicar, para mim, Susan e Chris sempre serão umas vacas que se importam apenas com o próprio umbigo. Prontofalei.

“Teve a sensação – física, mesmo – de que toda aquela sua vida miserável se estreitara até um ponto que podia sser um final ou o início de um raio que se ampliava.” (p. 109)

Ah, mas esse é o primeiro romance do King, tem outros mais cheios de horror” sim, eu sei. Mas mesmo assim, o filme de 1976 me dava arrepios que o livro não me deu. De qualquer forma, valeu muito a pena conhecer essa história mais a fundo, criada muito antes de bullying virar modinha e ser uma grande preocupação na sociedade. E quem sabe na próxima eu não escolha um mais aterrorizante? Aceito sugestões 🙂

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No Comments

  • Reply
    Rafa Filth Michalski
    February 14, 2015 at 6:27 pm

    Oi Babi, Stephen King é reconhecido por ser o mestre do horror mas é um cara que tem uma sensibilidade para escrever histórias impressionante. Digo isso tendo lido, À Espera de Um Milagre, A Redenção de Shawshank que deu origem a Um Sonho de Liberdade, Novembro de 63, Love, A história de Lisey.
    O horror de King talvez não seja o que você espera, é como chegar em casa com a sensação de que há algo de errado mas não conseguir adivinhar o que é, procurar por todos os comodos para descobrir que tudo está perfeito, então quando você senta-se na mesa descobre uma digital de sangue bem no meio dela, que tipo de pensando isso suscita dentro de sua mente? Um desespero para saber se sua familia está bem…
    Bom indico It, A Coisa e O Cemitério se quiser ler as duas obras mais assustadoras, mas o bom mesmo são seus contos, Tripulação de Esqueletos e Sombras da Noite. Há um conto que me marcou muito chamado, O Sobrevivente, que narra a história de um médico desesperado perdido em uma ilha que tem que se automutilar para conseguir comer e acabar com a fome. É bem assustador a descrição dele cortando seus dedos e tudo o mais.

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    Carla
    February 16, 2015 at 8:02 pm

    Eu já tentei ler esse livro, mas como sou beeeem lerda me perdi um pouco entre a narração e as noticias de jornal e tal, hahahaha. Eu já assisti o filme e gostei muito, então pretendo tentar novamente. Fico feliz que não seja o mais aterrorizante dele, não sei se sou muito fã de livros de horror, então fico feliz em ter escolhido o livro certo para começar a "conhecer" o King.
    Eu li o comentário do Rafa e meu Deus!! O.O Nunca vou ler O Sobrevivente. hahahaha. (A não ser que a curiosidade me vença).
    Adorei a resenha!

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    babimontec
    February 17, 2015 at 6:56 am

    Raaafaaaa, eu sou louca para ler À Espera de um Milagre, amo o filme e tenho esperanças que o livro quebre o meu trauma de acabar tendo um carinho maior pelas adaptações cinematográficas do que pela obra original do Stephen.

    Obrigada pelas dicas, eu super leria It se não fosse gigantesco, acho que vou fazer uma investida nos contos 🙂

    Beijão!

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    babimontec
    February 17, 2015 at 6:58 am

    Carla, que adaptação do filme você viu? Se for a mais recente, nossa, detestei 🙁

    Pois é! O Sobrevivente tem que tá realmente em um clima de terror e querer passar nervoso, porque, né… sem comentários hahahaha

    Beijão e obrigada pela visita! :*

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    Larissa Fernandes
    February 17, 2015 at 3:51 pm

    Oi Babi, este ano eu estou querendo muito me aventurar em livros do King, na verdade, terror em geral, mas eu estou com muito medo. Cara, não confio muito na minha imaginação. Já tinham me falado para começar pelo livro da Carrie porque era bem levezinho e era o melhor para começar.
    Adorei a resenha!
    Beijos
    Larissa (laoliphant.com.br)

  • Reply
    babimontec
    February 17, 2015 at 6:43 pm

    Lari, Carrie é uma boa pedida mesmo! Não dá medo porque você acaba ficando boa parte do lado da Carrie 🙂

    Beijos!

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