Casa da Palavra

RESENHA: A Terra Inteira e o Céu Infinito, de Ruth Ozeki

Capa A Terra Inteira e o Céu Infinito
Ser-tempo é aquilo que consegue coexistir em passado e presente, seja uma carta, um objeto, alguém ou até mesmo as palavras e histórias. E é com o objetivo de transformar sua tão admirada bisavó Jiko em um ser-tempo que Naoko Yasutani, uma japonesa de 16 anos, começa uma espécie de diário – disfaçado com a capa do livro À la recherche du temps perdu, de Marcel Proust.

Jiko é uma monja feminista, já de muita idade, que consegue ler as pessoas sem que precise trocar muitas palavras com elas. Por isso, logo repara o que sua bisneta tem sofrido e a incentiva a buscar o seu super-poder, ou melhor, o seu SUPAPAWA! para que possa enfrentar de frente todas as maldades e dificuldades sofridas.

Ao passear pelo litoral da pequena ilha onde vive no Canadá, a escritora Ruth encontra um misterioso saco plástico entre as algas jogadas pelo mar na areia da praia. Seriam destroços do tsunami? Dentro do saco descobre À la recherche du temps perdu de Nao, uma porção de cartas escritas em japonês, um caderno escrito em francês e um relógio antigo.

“Ela estava falando comigo em japonês, mas ao dizer isso usou o termo em inglês, superpower, que soou como supah-pawah. Dito muito depressa. Supapawa. Ou mais como SUPAPAWA!” (p. 184)



O livro intercala entre o diário de Naoko, em primeira pessoa, e entre a narrativa acerca da vida de Ruth, em terceira pessoa. Em ambas as partes a leitura flui, mas não deixe se enganar com a narrativa leve. Os assuntos abordados são pesados, indo de suicídio, bullying, alzheimer, Segunda Guerra Mundial, 11 de setembro e o tsunami de 2011 que abalou o Japão e o mundo. Além disso, Nao nos apresenta  uma cultura japonesa sob outra perspectiva, a perspectiva fora do politicamente correto. Mas isso também não impede que os personagens e algumas situações te tragam sorrisos aos lábios e que solte uma risada ou outra.

Logo de cara eu senti uma identificação muito intensa com Nao por ela ter um carinho imenso por sua vó, coisa que também tenho pelas minhas avós (e ainda tenho o privilégio de usar essa palavra no plural). A velha monja passa ser o seu chão e a sua força para encarar a vida miserável que começou a ter após ser obrigada a abandonar o único mundinho que conhecia, em Sunnyvale nos EUA, e ir morar no Japão.

“Eu ainda estava pensando nas coisas que e ela tinha me dito sobre as ondas e acabei ficando meio triste de pensar que a pequena onda da Jiko não iria durar muito mais tempo e logo ela voltaria para o mar, e mesmo sabendo que ninguém consegue segurar a água, agarrei os dedos dela com mais força para impedir que escorresse para longe.” (p. 206)



A história de Ruth, por sua vez, foi me conquistando aos poucos. Descendente de japoneses, Ruth é fisgada pela narrativa da adolescente e pelo mistério que ela traz: quem é Naoko? Vítima do tsunami? Estaria ainda viva? Reparei que a aparição do diário modificou em muitos aspectos a vida de Ruth, principalmente com relação ao seu marido Oliver. No início do livro, sentia que Ruth não tinha uma comunicação saudável com o seu marido  na verdade, parecia que ela  não mantinha um relacionamento saudável com ninguém, uma vez que parecia sempre não dar muita atenção para as coisas que ele lhe dizia – aquele famoso ditado “entrou por um ouvido e saiu pelo outro” ficou martelando na minha cabeça

E a princípio, pode parecer que Ruth usa o diário como uma espécie de fuga dos seus traumas e complexos, só que na verdade as duas acabam hiperligadas. Uma ajuda e depende da outra. Nao depende de Ruth para tornar Jiko (e ela própria) um ser-tempo. Ruth depende de Nao para se autodescobrir e dar continuidade a seus projetos.

“A impressão é de que estou esticando o braço para frente, através do tempo para tocar em você, e agora que o achou, você está estendendo o braço para me tocar!” (p. 30)



Vou ter que pedir desculpas, pois acredito que não estou sabendo colocar em palavras tudo o que esse livro me transmitiu. A Terra Inteira e o Céu Infinito possui uma história e personagens muito complexos, o que dificulta passar toda a sua grandiosidade em uma simples resenha. Eu percebi  três vertentes de interpretação, as quais não vou mencionar, pois acredito que percebê-las faz parte da graça do livro. Mas vou deixar uma dica: repararam que o nome da personagem é o mesmo da autora?

Essa obra já proporcionou três prêmios à autora (Man Booker Prize, Los Angeles Times Booker Prize e National Book Critics Circle Award) e se tornou o melhor livro que li este ano! E duvido muito que alguma outra venha desbancá-la desse pódio.

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12 Comments

  • Reply
    Jp Oliveira
    June 8, 2014 at 5:37 pm

    Olá, adorei seu blog. Com certeza voltarei aqui mais vezes, abraços!!!
    http://www.literamore.blogspot.com

  • Reply
    babimontec
    June 8, 2014 at 7:04 pm

    Oi Jp! Que bom que gostou, fico muito feliz!
    E volta sim, vou adorar a visita! 🙂

    Beijos!

  • Reply
    Estante Diagonal
    June 8, 2014 at 10:03 pm

    Oi Babi! Nossa fiquei curiosa viu, seria um autobiográfica? Mas sei que livros que tratam de assuntos meio pesados me "assustam" de qualquer maneira por você ter falado que uma de suas melhores leitura do ano, já ganha pontos comigo, dica anotada , estou sim, curiosa em conhecer a historia que a Ruth tem a contar. De ambas ^^

    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

  • Reply
    babimontec
    June 9, 2014 at 1:14 pm

    Oi, Joi!

    Tem pontos em comum com a vida da autora sim, mas como se trata de um romance, ela já disse que teve que inventar alguns fatos, pessoas e lugares. E leia sim, que vale a pena! Também não gosto muito de assuntos pesados, mas a narrativa é feita de uma forma tão fluida que você se comove sem se sentir pesada, sabe?

    Depois me conte o que achou!
    Beijinhos!

  • Reply
    Lara Lange
    June 10, 2014 at 11:47 pm

    Olaaa
    Não conhecia a obra!!! Mas fiquei super animada!
    A resenha me ganhou, ainda mais esse com carinho pela a avó. Valorizo muito quando livros mostram esses respeito com os idosos! 🙂

    um beijo Lara!
    http://meusmundosnomundo.blogspot.com.br

  • Reply
    Bruna T.
    June 11, 2014 at 3:05 pm

    Oi Babi, tudo bem?
    Nunca tinha ouvido falar sobre esse livro, mas sua resenha fez eu me interessar muito.
    Acho super bacana os livros que falam sobre a cultura japonesa sempre ressaltarem o respeito e amor que eles sentem por seus ancestrais, sempre acabo me identificando também.
    Estou querendo dar uma variada no tema das minhas leituras e assim que possível quero ler "A Terra Inteira e o Céu Infinito". Obrigada pela dica!
    Beijos, Bru
    http://www.sobrelivroseetc.com

  • Reply
    Renato Almeida
    June 12, 2014 at 3:36 pm

    Não conhecia o livro, mas gostei de sua opinião sobre o mesmo. Para ser sincero não sentia aquela necessidade enorme de ler, devo confessar, mas leria sim.
    Até mais. http://contodeumlivro.blogspot.com.br/

  • Reply
    babimontec
    June 12, 2014 at 10:57 pm

    Não tem como não amar um vovô e uma vovó <3

  • Reply
    babimontec
    June 12, 2014 at 11:01 pm

    É bem verdade, Bruna! Os japoneses têm uma cultura de valorizar bastante o respeito, como também a honra (coisa que tá faltando por aqui). Tanto, que lááá na epóca dos samurais existia um ritual chamado seppuku, que era quando a pessoa se sentia tão envergonhada por alguma coisa que tinha feito que pedia permissão do governo para tirar a sua própria vida.

    beijinhos!

  • Reply
    babimontec
    June 12, 2014 at 11:03 pm

    Renato, mesmo que não tenha sentido essa vontaade enooorme para pegar e ler, dê uma chance! Vale muito a pena, acredite 😉

    Beijos!

  • Reply
    Jessica Garcia
    June 14, 2014 at 3:55 pm

    Ahhh, então esse é livro que você falou haha Agora eu sei porque você gostou…
    Gosto muito de livros que abordam temas assim, principalmente sobre a segunda guerra. Já é meu desejado! Beijo
    http://entreeleitores.blogspot.com.br

  • Reply
    babimontec
    June 15, 2014 at 2:17 am

    Espero que você goste, Jessica! 🙂

    Beijinhos!

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