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RESENHA: Incidente em Antares, de Erico Verissimo

Resenha do livro Incidente em Antares, do Erico Verissimo

Apesar de muitas resenhas e sinopses apontarem como enredo principal as assombrações provocadas pelos mortos-vivos da cidade de Antares, posso dizer que, na verdade, trata-se do clímax da história criada por Erico Verissimo. Antes de chegar ao clímax, temos toda uma narrativa para contar as características e fatos que levaram os defuntos a entrarem em greve, tornando a cidade fictícia Antares do Rio Grande do Sul, localizada na fronteira entre Argentina e Brasil, a personagem principal da história.

Conhecemos Antares e seus cidadãos a partir das desavenças e desventuras das famílias Vacariano e Campolargo. Os Vacarianos são uma família tradicional, marcada pelo coronelismo, e a responsável por mudar o nome de Povinho da Coveira para o nome da estrela Antares. De acordo com o patriarca da família, Francisco Vacariano – um homem agressivo e autoritário –  o nome caiu como luva para a
cidade, pois acreditava que ali viviam muitas antas.

Já os Campolargos são de uma família vinda de fora da cidade e Anacleto Camporlago soube rapidamente conquistar amigos e respeito por ousar enfrentar Chico Vacariano. Não é surpresa dizer que ambas as famílias, durante muitos e muitos anos, foram inimigas mortais. E entre assassinatos, reinava a sede por vingança. Apenas uma figura muito importante para a História do Brasil que, por meio da politicagem, conseguiu fazer Vacarianos e Campolargos apertarem as mãos e esquecerem rixas passadas.

Figura essa chamada Getúlio Vargas e cuja proposta de paz era para quebrar a Política do café-com-leite, no qual apenas políticos paulistas e mineiros disputavam o poder, e colocar um gaúcho na presidência do Brasil. E a partir daí que vamos entendendo os motivos que levaram os coveiros a entrarem em greve e a se recusarem enterrar os falecidos antarenses. Ato que fez com que os mortos-vivos levantassem de suas tumbas para assombrar a cidade.

“- Qual democracia! – replicou o cel. Vacariano – Vivemos numa cafajestocracia, isso é que é. Se dependesse de mim, eu puxava a corrente da descarga para toda essa porcaria ir-se cano abaixo…”
(p. 107)

Incidentes em Antares pode ser facilmente considerada um realismo fantástico, corrente literária que reúne fatos reais com acontecimentos fictícios – que inclui a própria cidade de Antares e o acontecimento paranormal da sexta-feira 13 de dezembro de 1963, dã! E para dar a sensação de veracidade, Erico Verissimo se utiliza de documentos como matérias e colunas de jornais, pesquisas e cartas para narrar a história.

A princípio essa forma de narrativa pode parecer cansativa, mas eu garanto que a história só ficou mais interessante e só fez minha admiração pelo autor aumentar. É preciso muito talento para narrar de tantas formas diferentes, como se realmente fossem outras pessoas conversando com você. Cada uma com a seu jeito próprio de falar.

“- Racista, eu? Ora, não seja bobo. Sabes como trato a minha negrada. Eles me adoram. Mamei nos peitos duma negra-mina. Me criei no meio de moleques pretos retinos. Quando leio esses casos de ódio racial nos Estados Unidos, comento a coisa com a Lanja e lhe digo que no Brasil, a gente, graças a Deus, não tem esses problemas, pois aqui o negro conhece o seu lugar.” (p. 59)

Outro fato que me conquistou logo de primeira foram os diálogos recheados de ironias e sarcasmo, principalmente quando os personagens estavam se referindo a alguma característica da sociedade brasileira. Verissimo brinca com a tragédia brasileira e humana no decorrer de todo o livro. Tanto que marquei tantas passagens incríveis que olhando agora parece um verdadeiro carnaval de post-it. A obra é um grande ode à liberdade, que incrivelmente foi publicada durante a Ditadura Militar no Brasil.

Eu simplesmente amei conhecer a escrita de Erico Verissimo e já estou mais do que ansiosa para cair de cabeça na série O Tempo e o Vento (uma pena ser tão cara, vai me custar um rim). Mas não recomendaria a leitura para quem não gosta de história, porque até eu que gosto tive que apelar ao Google para me situar em algumas partes, já que Verissimo não se preocupa em explicar com muitos detalhes o contexto histórico de cada parte da obra. No entanto, quem gosta desse tipo de narrativa e de diálogos ácidos, eu apenas digo: CORRA E LEIA! Garanto que não vai se arrepender 😉

Transcrevo abaixo um trecho do texto que se encontra ao final do livro que achei muito interessante e que resumiu bem as minhas impressões sobre Incidente em Antares:

Um libelo pela liberdade

(…)
O romance, além de ser uma visão crítica e profunda da sociedade brasileira, insiste na tese de que é dever de todo escritor dar testemunho sobre o seu tempo, pois a liberdade é e sempre será a matéria-prima das artes e do pensamento.

Em contraste, Incidente em Antares – espécie de súmula da obra de ficção de Erico – tem outra caracteristica interessante: o humor. Se existe algo terrível que a supressão da liberdade provoca, é a impossibilidade de rir, a perda da alegria de viver. O Brasil da era militar também era assim: muitos haviam perdido o impulso da alegria.

Por isso o bom humor do romance de Erico tem a força de uma declaração política. Trata-se de um livro que desperta o riso. Não o riso fácil e impostado da falsa euforia, do esquecimento, da alienação, mas o riso – às vezes apenas sorriso –  da ironia capaz de perceber, por trás das verdades de fachada, impostas por poderosos de má-fé, a verdade do medo em que eles vivem e a fragilidade de suas imposições.
(…) ”

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No Comments

  • Reply
    Taciele Morais
    December 28, 2013 at 7:25 pm

    Ok. É definitivo: PRECISO ler Érico Verissimo. De 2014 não me passa! Quanto mais leio comentários sobre os livros dele mais a vontade aumenta, e eu já tô ficando louca de curiosidade! Sua resenha me fez ficar com ainda mais vontade (coisa que eu nem pensava ser mais possível) de ler Érico Verissimo. Agora virou questão de honra! hahaha

    Beijão, Babi, e um ótimo 2014 pra você! =D

  • Reply
    babimontec
    December 28, 2013 at 7:55 pm

    Isso! Leia rápido que o Erico é incrível! Tenho certeza que você vai gostar, Taci 😉

    E um ótimo Ano Novo pra você também, muitas leituras, muita paz, saúde, sucesso, realizações! 🙂

    Beijoos!

  • Reply
    Poliana Araújo
    December 31, 2013 at 2:05 am

    Oi, tudo bom?
    Passando para deixar um comentário rsrs
    Não conhecia o livro, mas fiquei muito ansiosa.
    Amei a resenha, ficou bem detalhada 🙂
    Feliz 2014!!
    Beijos*-*
    Território das garotas
    http://territoriodascompradorasdelivro.blogspot.com.br/

  • Reply
    Vanessa Chanice
    January 3, 2014 at 3:25 pm

    Oi Babi!! Adorei a forma como você descreveu esse livro!! Me deixou com muitas saudades, pois faz anoooos que li Incidente em Antares e eu já me esqueci de muita coisa, então pretendo reler logo! A escrita de Veríssimo é muito boa mesmo.
    Beijooo!

  • Reply
    babimontec
    January 6, 2014 at 4:32 am

    Feliz 2014 pra vc também, Poli!

    Que bom que gostou da resenha, fico muito feliz por saber 😀

    Beijos

  • Reply
    Cah Martins
    January 8, 2014 at 10:19 pm

    Posso ser chamada de sem cultura, mas Érico Verissimo deve ser o último, na minha lista de preferencia de autores…rss
    Li no Ensino Médio e achei um tédio… Talvez tenha sido a época errada para enraizar uma impressão, mas não sei… Talvez em algum futuro eu faça uma releitura pra reformular a minha opinião (ou não né.. rss).
    De qualquer forma, sua resenha ficou muito boa!!! 🙂

    Estou começando um blog, fala sobre um pouco de tudo, e também vou falar sobre livros… Dá uma olhada se puder
    sugarylemonade.blogspot.com.br

    Beijos

  • Reply
    babimontec
    January 9, 2014 at 1:55 pm

    Cah, seja muito bem-vinda à blogosfera! 🙂
    Claro que vou dar uma passadinha no seu cantinho, fico muito feliz que tenha gostado do meu ♥

    Espero te ver mais vezes por aqui!
    Beijoos

  • Reply
    Fabiih Oliveira
    January 14, 2014 at 7:58 pm

    Adorei! Estou louca para ler >.<

  • Reply
    Ricardo Biazotto
    January 21, 2014 at 11:54 pm

    Até hoje não tive a oportunidade de ler nada do Érico, mas de um tempo pra cá o interesse apenas aumentou. Isso porque passei a pesquisar sobre um grande amigo dele, Edgard Cavalheiro, que em jornais da época fez inúmeros elogios a ele. Infelizmente Cavalheiro morreu antes do lançamento desse livro, mas a sua crítica foi suficiente – assim como a primeira que li – para me deixar curioso. Só quero entender porque demorei tanto pra conhecer esse livro, apesar de ser de um gênero que sou muito fã. Um realismo fantástico em um momento histórico tão conturbado deve ser muito especial.
    Espero ter a oportunidade de ler o quanto antes e gostar tanto quanto você.

    Beijos,
    Ricardo – http://www.overshockblog.com.br

  • Reply
    Suzane
    July 28, 2014 at 8:04 pm

    Já no começo da resenha você cometeu um erro grave, pois não são os defuntos que entram de greve e sim a população de Antares.

  • Reply
    babimontec
    July 28, 2014 at 8:26 pm

    Oi Suzane, tudo bom?
    Então, na verdade o que acontece é que os coveiros entram em greve querendo melhores condições de trabalho e remuneração. A partir daí eles se recusam a enterrar todos os cidadãos antarenses que falecem e, em contrapartida, os morto-vivos começam a sua própria greve. Eles se recusam a deixar a cidade de Antares até que seus corpos sejam dignamente enterrados e começam a assombrar a cidade.

    São duas greves que acontecem paralelamente na história. Espero ter esclarecido e caso essa ideia não tenha ficado clara na resenha, deixo aqui a mea culpa 😉

    Beijos!

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