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RESENHA: A Improvável Jornada de Harold Fry, de Rachel Joyce

Resenha do livro A improvável jornada de Harold Fry

O primeiro romance de Rachel Joyce pode ser resumido da seguinte forma: uma história sobre frustrações, arrependimentos, perdas, amor, amizade e acima de tudo sobre esperança. Mas se eu resumisse essa resenha a isso eu não passaria a grandiosidade dessa história e muito menos a sensibilidade que autora teve ao escrevê-la.

Harold Fry é um homem na casa dos sessenta, tímido, reservado e com zero de alta estima. Seu casamento com Maureen há muitos anos já deu sinal de fracasso. Seu relacionamento com filho está longe de ser perfeito. Ele vive na mesmice, da qual ninguém consegue quebrar e em relacionamentos que ninguém tem coragem de pôr em palavras o fato de que já desmoronaram e não passam de encenação.
No entanto, em mais um dia normal com meias palavras trocadas com sua esposa, Harold recebe uma carta de uma amiga que há tempos havia perdido o contato. Uma amiga chamada Queenie, que desperta lembranças muito antes abandonadas. Mas por que ela entraria em contato depois de tantos anos? Ao ler a carta Harold se depara com uma notícia horrorosa. Queenie escreve para agradecer a amizade de Harold e conta que foi diagnosticada com um tumor inoperável. A informação o abala tanto que ele passa o resto do dia desorientado, até que decide escrever uma carta em resposta.
Harold, então, veste sua gravata e seus docksides e vai até a próxima caixa do correio, e a próxima e a próxima e a próxima. Quando ele se dá conta já está no limite da cidade e percebe que não basta apenas enviar a carta, que é preciso fazer algo mais por Queenie. É aí que ele resolve dar início a sua jornada, uma caminhada que vai de Kingsbridge até Berwick-Upon-Tweed, onde Queenie está internada.

Quem já teve uma (quase) perda , não importa se próxima ou distante, sabe o quanto isso mexe com todos envolvidos, o quanto muda comportamentos e nos faz rever certos hábitos e maneiras de levar a vida. Quando nos deparamos com uma doença traiçoeira como o câncer, que cresce silenciosa e nos invade sem avisar, ficamos com aquele sentimento de inutilidade. Você sabe que não há nada que você possa fazer para mudar o diagnóstico, você não tem poder nas mãos para ajudar a pessoa querida, você não tem outra coisa a fazer a não ser tentar dar um conforto e fazer do sofrimento dela menos “doloroso”. E tudo o que fazemos, fazemos com aquele quê de esperança, acreditando que vai ficar tudo bem, mesmo que a vida nos mostre o contrário a cada hora, a cada dia.

Por isso, para alguns olhos ainda inocentes a jornada de Harold Fry pode parecer tola e sem sentido. Mas para outros é um ato nobre, louvável, admirável. Caminhar rumo a uma saída, caminhar para encontrar um caminho para si mesmo, para os outros, para seus relacionamentos, para um sentido na vida. Caminhar nos faz refletir e pensar, e é exatamente isso que Harold começa involuntariamente a fazer: a repensar a maneira que levou a sua vida, a refletir sobre traumas que gostaria de manter trancados naquele baú no fundo da mente. A repensar seu relacionamento com Maureen e seu filho David, a refletir em como tratou sua amizade com Queenie.

O livro nos mostra o poder que uma amizade tem, de nos colocar para frente quando precisamos, de encontrar apoio mútuo e de nos motivar. Estou longe de fazer jus ao que o livro realmente é, mas foi mais ou menos isso o que ele me transmitiu. Rachel Royce construiu personagens complexos e admiráveis, humanos, que poderia ser eu ou você que está lendo. Não deixe de ler para descobrir se A Improvável Jornada de Harold Fry ajudou Queenie e o próprio Harold, porque esse detalhe eu não vou comentar 😉

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